Transeunte

Video clipe da Música transeunte
Autor: Juliano Guerra
Produção: Kinoclipe + Cineasta 81 + Alberg Studios
Direção e roteiro: Gustavo Serrate e Rodrigo Huagha
Fotografia: Gustavo Serrate
Elenco: Yan Klier, Carol Barreiro
Equipe: Kelly Costty, Mariana Merlim, Eduardo Serrati, Rogério Henrique, Viktor Dolga

“CHARLES BAUDELAIRE DESCREVEU O ATO DE ANDAR PELAS RUAS DA CIDADE NA DÉCADA DE 1850 COMO UMA AVENTURA, MAIS DRAMÁTICA DO QUE QUALQUER PEÇA, MAIS RICA EM IDÉIAS DO QUE QUALQUER LIVRO. ELE SE TORNOU UM FLÂNEUR. FLÂNEURS NÃO TEM OBJETIVOS PRÁTICOS EM MENTE, NÃO ESTÃO ANDANDO PARA OBTER ALGO, OU PARA IR A ALGUM LUGAR. O QUE ESTÃO FAZENDO OS FLÂNEURS É OBSERVAR. ABRIR OS OLHOS E OUVIDOS PARA O CENÁRIO AO SEU REDOR, QUERENDO SABER SOBRE A VIDA DAS PESSOAS QUE PASSAM, CONSTRUINDO NARRATIVAS SOBRE AS CASAS, INTERCEPTANDO CONVERSAS, ESTUDANDO COMO AS PESSOAS SE VESTEM, E SUAS VIDAS EM GERAL. FLÂNEURS DELICIAM-SE COM O QUE PODEM APRENDER E DESCOBRIR. ” – TRECHO DE “THE ART OF LOOKING SIDEWAYS” POR ALAN FLETCHER

Me identifico com a figura do Flâneur. Um andarilho, um transeunte, passeando incógnito, silencioso pelas ruas da cidade, observando passivamente, para acalmar a alma e ver o movimento das coisas e das pessoas, um documentarista descompromissado que registra com os olhos. Win Wenders elevou à décima potência a figura do flanador, ao trata-los como anjos nos filmes “Asas do desejo” e “Tão longe tão perto”. Nesses filmes, o Anjo Flâneur tem a capacidade de ler os pensamentos alheios, e de fazer parte de uma dimensão-tempo/espaço diferente da nossa. Observam o mundo com uma compaixão divina. O ato de sentir a existência através da vida alheia é um ato espiritual. Já morei em Curitiba e São Paulo, também visitei Montevideo e Caracas, todas ótimas cidades para um passeio flanador. São cidades em que vivi verdadeiras expedições observatórias, passeios pela cidade com o olhar de um explorador, descobrindo em cada nova esquina uma figura peculiar: Um homem sem os braços, coçando as costas na parede, músicos de rua trazendo vida através da melodia, travestis beberrões fazendo cena no meio da cidade, mulheres com impulso homicida necessitando conselhos, viciados em crack explicando que vieram de um passado abastado, e animais perdidos e assustados tentando o caminho de volta para suas casas originais. Passear pela cidade é sempre uma aventura se você o faz com os olhos certos.

Em 2012 Juliano Guerra, um músico amigo meu, lançou o disco “Lama” para download gratuito na internet. Eu o conheci através de outro figuraça, o escritor manauara Diego Moraes, que me apresentou à música inclemente. O som do disco é uma mistura de gêneros, com sotaque cultural do Rio Grande do Sul. Logo escutei a música “Transeunte”, sobre um homem flanando na cidade, passeando por ruas ainda cheias de mistérios e medo, observando ‘as garotas de vida fácil’, os ‘vadios da cidade’ percebi a identificação com dois dos meus projetos. Estava escrevendo o projeto “Domingo” sobre Flâneurs, e também havia acabado de filmar “Infrator”, sobre um flanador ex-presidiário, apreciando um dia de liberdade pela cidade. Enfim, resolvemos fazer o video clipe desta música, de Juliano Guerra. Eu e o diretor/roteirista Rodrigo Luiz Martins, convidamos o ator, também amigo, Yan Klier, pra encarnar o papel do protagonista, que vai contracenar com outra amiga atriz, Carol Barreiro. É uma produção entre amigos, todos com muito talento, tem tudo para ficar muito bom.

ENTREVISTA – JULIANO GUERRA
TRAJETÓRIA

Eu comecei com música aos 6 anos, primeiro tendo aulas de violino, depois ganhei um teclado, que foi meu instrumento até os treze anos. Aos 13 comecei a tocar no violão da minha irmã mais velha e o violão virou meu instrumento principal (embora eu ainda toque teclado e mais uma penca de coisas, não muito bem). Acho que desde moleque eu já compunha algumas coisinhas. Lá pelos 16 que eu comecei a levar mais a sério a parada de ser compositor, tive banda de rock que durou até 2004 (gravamos dois CDs demo) e em 2006 comecei a achar a linguagem do rock limitada pro que eu queria fazer/dizer e fui rumando pra MPB. De lá pra cá participei de alguns festivais, tive uma banda de samba de raiz chamada Noesis (um dos músicos do Lama, Eugenio Bassi, fazia parte dessa banda) e finalmente, em 2011, fiquei por conta própria. Ano passado, depois de um ano esperando a produção de um disco que acabou não acontecendo por falta de financiamento, montei um estúdio na casa dos meus pais, chamei amigos músicos e gravei o Lama. De lá pra cá tem sido bem legal, consegui fazer show fora do estado pela primeira vez, o disco recebeu boas críticas, teve muitos downloads e audições em portais de música independente e por aí vai.

INFLUÊNCIAS

As influências pra escrever e compor são as mesmas. Embora nem sempre seja o caso pra outros artistas, na minha cabeça tá tudo meio misturado. Aliás, Cezanne é uma influência na escrita e na música, Andy Warhol também, os musicais da era de ouro do cinema americano – Fred Astaire e Ginger Rogers dançando cheek to cheek, essas coisas. Depois, lá por 2004, conheci o surrealismo, que foi um negócio que virou minha cabeça do avesso. Antonin Artaud, Bunuel, Dali – a maneira como esses caras pensavam arte me influenciou muito. E os beats, claro, que sempre foram uma quase-obsessão. Na música, tem dois caras que são onipresentes desde a minha infância: Chico Buarque e Raul Seixas. São coisas que se ouvia na minha casa e que me influenciaram pra caramba.Depois veio tudo que aconteceu na minha adolescência, fim dos 90, começo dos 00: Nirvana, Strokes, Los Hermanos. E ainda teve minha descoberta tardia dos malditos: Itamar Assumpção, Sergio Sampaio (de longe, meu compositor favorito), Arrigo Barnabé, Jards Macalé.

Mas minha vida é isso: ouvir música, ver filmes, ler (embora eu não leia mais quase nada, a idade me deixou mais burro e menos infeliz), então citar influências sempre é foda. Escrevi um parágrafo enorme e ainda faltam uns 300 nomes nessa lista. Nem cheguei a falar no Dylan, pô.

TRANSEUNTE

“Transeunte” nasceu de uma noitada real, no dia em que eu me mudei pra uma casa na esquina da rua Dom Pedro com a Almirante Barroso, em Pelotas. Eu e o poeta e ex-companheiro de banda Jonas Rodeghiero saímos pra ir ao samba de uma casa chamada Bob Lanches, que tinha uma roda muito boa nessa época (2006). “As moças de vida fácil” do primeiro refrão na verdade são os travestis da praça Coronel Pedro Osório, no centro histórico de Pelotas, que nos pararam pra pedir fogo. Aliás, tudo que tá na música é, embora com algum romantismo exagerado da minha parte, verdade. E tem aí a figura do flaneur, do sujeito que olha sem fazer parte, do transeunte meio medroso, que vai e não vai, tem medo de bandido, medo de prostituta, medo da noite. Aí já pode atribuir tudo ao personagem mesmo, porque eu gosto muito de noite, bandidos, prostitutas e tudo mais que a cidade oferece depois das onze da noite.

Mas é uma canção de amor pra Pelotas, embora não vá servir pra vender viagem turística ou anunciar a FENADOCE (feira anual que tem aqui) no Jornal Nacional, né? É uma canção sobre minha relação com a cidade – sobre a relação de um homem qualquer com uma cidade qualquer, talvez – e qualquer outra coisa que eu diga dela é conjectura. Tua interpretação é tão boa e válida quanto a minha.

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